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sábado, 28 de dezembro de 2013

Uma turma não é, apenas, uma turma. Um professor não é, apenas, um professor.

 
 


 
Sei que um professor não é, apenas, um transmissor de conhecimentos: é alguém que educa integralmente os seus alunos. Estimula e desafia os alunos a aprenderem a aprender. Estimula e desafia os alunos a desenvolverem o seu caráter. Mas um professor é também estimulado pelos constantes desafios que as personalidades díspares que constituem uma turma colocam, bem como pelos diferentes estádios cognitivos em que se encontram os alunos. Nutre e gere conteúdos e afetos. Despertar a motivação nos alunos - alimentando a sua -, inculcar o gosto pela descoberta de conhecimentos, de si, dos outros...auxiliá-los no trajeto académico que constitui - neste caso muito peculiar - o ensino secundário. Quão nobre e estimulante pode ser esta tarefa!
No domínio da existência humana não há apriorismos, há construção e dedicação. Labuta incessante em prol da elevação e enriquecimento do eu singularmente considerado e de todos globalmente valorizados.
Há uma prova, assaz intimista, que manifesta o gosto e a «vocação» do professor e que poderia ser consubstanciada pelo pensamento, ancorado na sensibilidade, da seguinte forma: uma turma não é, apenas, uma turma, é Esta turma. E deste modo, as turmas deixam de ser aglomerados de alunos com números e passam a ser pessoas que simultaneamante desafiam e são desafiados.
No inverso, um professor também não é, apenas, mais um professor. Pensar e senti-lo desta forma é a prova invertida, ofertada pelos alunos, que nos desvela o desencontro entre o que é e o que faz, entre o que é e o que deveria ser e fazer.
Não abordarei aqui – não é o momento -  a falsa dicotomia generalizada do que faz um bom professor, se o domínio que possui dos conhecimentos, se a experiência pedagógica. Afiguram-se-me como dimensões indissociáveis.
E toda esta verborreia serve para assumir que é gratificante saber que há alunos que trilham outros caminhos, pós ensino secundário, cujos professores não lhes  foram/são indiferentes e que o «jantar saudoso» que organizaram ontem foi/é a presentificação de cumplicidades de outrora e a antecipação de partilhas do amanhã. 
A Mariana, a Leninha, a Ana Paula, a Ana Sofia, o Simão, o Miguel, o Diogo, a Cátia, a Patrícia – e tantos outros - jamais seriam indiferentes aos professores. Libertaram-se cedo do número que o sistema educativo lhes impôs e irromperam com os seus projetos, cursos e afetos. Em simultâneo, também o professor se libertou da clausura a que estava confinado – também ele, coisificado por um número, por graus, divisões e sub-divisões no estatuto da carreira -, e escolta as existências, com inenarrável gosto, daqueles que  foram seus alunos. É que esta turma do curso de Artes Visuais que findou o ensino secundário no ano letivo 2012/13 nunca se reduziu  a mais uma turma. E eles sabem e sentem isso. Tal como eu e a professora Alice Sousa.
E neste élan magicamente construído em que sentimos os alunos enquanto seres especiais e eles, numa dialética de reciprocidade, nos concedem e reconhecem esse atributo, talvez resida a verdadeira essência do educar, do aprender e do existir.
Elsa Cerqueira