A tua BE tem muitas novidades literárias. Já foste visitá-la e escolher um livro?
Mostrar mensagens com a etiqueta escritores. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta escritores. Mostrar todas as mensagens
quinta-feira, 19 de abril de 2018
terça-feira, 21 de novembro de 2017
Julián Fuks – Prémio Literário José Saramago 2017
Nascido em São Paulo, em 1981, Julián Fuks é escritor, tradutor e crítico literário. Filho de argentinos que deixaram o país por motivos políticas, Fuks aborda a questão da identidade e do exílio em A Resistência, livro que além de vencer o Prémio José Saramago recebeu em 2016 o Prémio Jabuti.
sexta-feira, 22 de abril de 2016
quinta-feira, 14 de abril de 2016
13 livros que todos deveriam ler ao longo da vida
Segundo os leitores da Revista "Galileu" há livros imprescindíveis:
1. O Homem que Calculava, Malba Tahan: "Indico para os não amantes de matemática, para terem outra visão da ciência dos números."
2. Ensaio sobre a Cegueira, José Saramago: "O livro leva-nos à reflexão de que, interiormente, somos seres que não conhecemos."
3. O Velho e o Mar, Ernest Hemingway: "Pela mensagem emblemática, virtuosa e empírica que o texto nos joga impiedosamente na cara. A vida se reume ali."
4. O Principezinho, Antoine de Saint-Exupéry: "Não importa a idade, o essencial sempre será invisível aos olhos"
5. A Revolta dos Porcos, George Orwell: "Uma fábula moderna que nos leva a pensar sobre o poder e as tentações que o cercam."
6. Diário de Anne Frank, Anne Frank: "Mostra como podemos passar pelas maiores adversidades da vida e ainda sonhar."
7. O Mundo de Sofia, Jostein Gaarder: "Excelente para estudar filosofia e te fazer pensar sobre as coisas."
8. Fernão Capelo Gaivota, Richard Bach: "Um livro que nos mostra a importância de se buscar propósitos mais nobres para a nossa existência. Sempre almejar e fazer as coisas com perfeição, nem que seja apenas para nós mesmos."
9. O Mundo Assombrado pelos Demónios: A Ciência Vista Como Uma Vela No Escuro, Carl Sagan: "Pode haver uma base de conhecimento ainda ignorada, sem a qual ninguém conseguirá construir o invento que se tem em mente."
10. Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley: "Foi uma profecia quase bíblica de como a sociedade perderia a liberdade e o direito de escolha e a privacidade através de uma ditadura altamente tecnológica."
11. O Sol é para Todos, Harper Lee: "Uma obra ímpar que trabalha de forma peculiar, mas leve, temas de extrema relevância e que são extremamente atemporais (infelizmente) pelas suas questões sócio-históricas, como o racismo."
12. Os Miseráveis, Victor Hugo: "Os personagens têm uma humanidade e uma força que torna toda a dor em algo maior: o amor que o ser humano deve ter. Victor Hugo trouxe a pobreza, que era um tema absolutamente novo na época. E apresentou uma humanidade acima das superficialidades e das regras absolutas que geram tantas injustiças. O tema ainda é tão atual e verdadeiro. Imperdível!"
13. O Retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde: "Um dos clássicos de Oscar Wilde, com sua imensurável escrita e seus ricos personagens, com personalidades fortes de de célebres frases."
terça-feira, 15 de dezembro de 2015
"Haverá BE mais bela do que eu?"
"TABACARIA
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa,
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordámos e ele é opaco,
Levantámo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -,
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.
Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olhou-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica.
(O dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da Tabacaria sorriu."
Álvaro de Campos, in "Poemas"
quarta-feira, 4 de novembro de 2015
A importância de ler e escrever segundo Mario Vargas Llosa
"Da caverna aos
arranha-céus, do garrote às armas de destruição massiva, da vida tautológica da
tribo à era da globalização, as ficções da literatura têm multiplicado as
experiências humanas, impedindo que homens e mulheres sucumbamos à letargia, ao
isolamento, à resignação. Nada tem semeado tanto a inquietude, agitado tanto a
imaginação e os desejos como essa vida de mentiras que acrescentamos à que
temos, graças à literatura para protagonizar grandes aventuras, grandes
paixões, que a vida real nunca nos dará. As mentiras da literatura se
transformam em verdades através de nós, os leitores transmutados, contaminados
de desejos e, por causa da ficção, em permanente desafio com a medíocre
realidade. Feitiçaria que, ao nos iludirmos em ter o que não temos, ser o que
não somos, aceder a essa impossível existência, onde, como deuses pagãos, nos
sentimos terrenos e eternos, ao mesmo tempo, a literatura introduz em nossas
mentes o inconformismo e a rebeldia, subjacentes a todas as façanhas que têm
ajudado a reduzir a violência nas relações humanas. Para reduzir a violência, e
não acabar com ela. Porque a nossa será sempre, felizmente, uma história
inacabada. Por isto, temos que prosseguir sonhando, lendo e escrevendo, a
maneira mais eficaz que encontramos para aliviar nossa natureza perecível,
derrotar a podridão do tempo e tornar possível o impossível."
Excerto do discurso de Mario Vargas Llosa ao receber o Prémio Nobel de
Literatura, Estocolmo, Suécia, 7 de dezembro de 2010.
sábado, 10 de outubro de 2015
Svetlana Alexievich: Prémio Nobel da Literatura
O Prémio Nobel da Literatura foi esta quinta-feira atribuído em Estocolmo à bielorrussa Svetlana Alexievich, autora de livros sobre as mulheres na II Guerra, os soldados soviéticos mortos no Afeganistão, as consequências do acidente nuclear de Chernobyl ou a criação e sobrevivência do Homo sovieticus.
Na sua obra, a polifonia elogiada pela Academia Sueca traduz-se na forma como a jornalista dá voz a centenas de testemunhos, homens e mulheres protagonistas anónimos da história, a favor ou contra um regime.
«Não estou preparada para julgar como politóloga ou como economista. Queria simplesmente organizar todo esse caos. A sociedade desintegrou-se, atomizou-se, uma grande quantidade de ideias trabalham neste espaço. A minha tarefa era escolher as principais direções das correntes enérgicas da vida, dar-lhes uma forma literária, fazer isso com arte.
Queria que cada qual gritasse a sua verdade. Deixei falar toda a gente: os carrascos e as vítimas. Estamos habituados a sentir-nos uma sociedade de vítimas. Mas a mim sempre me interessou porque é que os carrascos estão calados? Porque é que o bem e o mal se igualaram?».
Svetlana Alexievich
Só há um livro de Svetlana Aleksievich publicado em Portugal. Trata-se de "O Fim do Homem Soviético – Um Tempo de Desencanto", publicado em abril deste ano pela Porto Editora.
segunda-feira, 31 de agosto de 2015
quinta-feira, 28 de maio de 2015
Poema de Mário Cláudio
FELES
Por todo um Inverno,
O amor lhe dilacerou o ventre,
Com fundas garras de gelo.
E a Primavera zumbiu,
Sobre sua cabeça,
Numa vertigem de pólen.
Senta-se agora,
Junto à lareira do Outono,
E é um bule de porcelana.
Mário Cláudio, Dois Equinócios, Porto, Campo das Letras, 1996.
sábado, 28 de março de 2015
Quem foi Herberto Helder?
"As Palavras
Ficarão para sempre abertas as minhas
salas negras.
Amarrado à noite,
eu canto com um lírio negro sobre a boca.
Com a lepra na boca,
com a lepra nas mãos.
Este mamífero tem sal à volta,
este mineral transpira, a primavera precipita-se.
Com a lepra no coração.
Mais de repente,
só chegar à janela e ver uma paisagem tremendo
de medo.
E uma vida mais lenta
só com uma estrela às costas,
uma tonelada de luz inquieta,
uma estrela respirando como um carneiro
vivo.
Igual a esta espécie de festa dolorosa,
apenas um ramo de cabelos violentos
e o seu odor a pimenta,
no lado escuro
como se canta que as salas vão levantar
o seu voo.
Ficarão para sempre abertas estas mãos exageradas
em dez dedos com sono,
como uma rosa acima do pénis.
Ao cimo do caule de sangue,
essa flor confusa.
Um equilíbrio igual,
só a estrela ao cimo do êxtase.
Só alguma coisa parada no cimo de uma visão
tremente.
A primavera, que eu saiba,
tem o sal como cor imóvel,
Por um lado entra a noite,
assim de súbito negra.
De uma ponta à outra enche-se o espaço
aplainando tábuas.
Rasga-se seda para aprender o ritmo.
Abraço um corpo com as camélias
a arder.
Abertas para sempre as negras partes
de mais uma estação.
Semelhante a isto
as mulheres andam pelas galerias transparentes,
e o palácio queima a noite onde estou
cantando.
É possível ainda cortar ao meio o ofício de ver —
e num lado há espelhos bêbedos,
no outro um cardume ilegível de sons
obscuros.
Sabe-se então pelo silêncio em volta,
sabe-se em volta que são lírios
sonoros.
Passando
as mulheres colhem estes sons irrompentes,
e as mãos ficam negras junto à beleza
insensata.
Elas sorriem depois com um talento
terrível.
Levamos às costas um carneiro palpitante.
Pesa tanto uma estrela
quando se acorda nas salas negras abertas de par em par,
e as mãos agarram um ramo de cabelos dolorosos,
e sobre a boca um lírio em brasa,
branco, branco,
que não nos deixa respirar.
A lepra na boca,
que não nos deixa respirar.
Um ramo de lepra contra o corpo,
como isto então só o movimento de águas obscuras
pelos canais de um canto,
como um palácio de salas negras abertas
para sempre.
Este animal respira como um espelho de pé,
no ar,
no ar."
Biografia:
Escritor português (1930-2015), natural do Funchal. Estudou na Faculdade de Letras de Lisboa, trabalhando depois como bibliotecário, jornalista e autor de programas radiofónicos. Colaborou em diversas revistas (Graal, Cadernos de Poesia, Búzio, Poesia Experimental 1 e 2, entre outras). Ligado ao movimento da poesia concretista (ou experimental), é conhecida a sua aversão a aparições públicas ou manifestações de reconhecimento da sua notoriedade. Recusou, em 1994, o Prémio Pessoa. Considerado um dos grandes escritores portugueses contemporâneos, a sua poesia tem uma densa imagética, frequentemente associada a temas ligados ao questionamento do eu, à presença de medos, ao conhecimento do humano, temas ligados por vezes a um certo misticismo, servidos por uma linguagem original e de grande riqueza metafórica. Estreou-se com O Amor em Visita (1958), publicando, em 1963, um dos seus livros mais célebres, Os Passos em Volta (contos). A sua obra poética inclui ainda A Colher na Boca (1961), Poemacto (1961), Retrato em Movimento (1967), Ofício Cantante (1967), O Bebedor Nocturno (1968), Vocação Animal (1971), Poesia Toda (1973 reeditado em 1981 e 1991), Cobra (1977), O Corpo, o Luxo, a Obra (1978), Photomaton & Vox (1979), A Cabeça entre as Mãos (1982, Prémio de Poesia de 1983 do Pen Clube Português), Edoi Lelia Doura. Antologia das Vozes Comunicantes da Poesia Portuguesa (1985), Flash (1986), As Magias (1987), Do Mundo (1994), Ouolof (Poemas Mudados Para Português) e Poemas Ameríndios (Poemas Mudados Para Português), ambos em edições datadas de 1997. Em 2001, publica Ou o Poema Contínuo.
In http://www.escritas.org/pt/biografia/herberto-helder
quinta-feira, 5 de março de 2015
"Cantares dos trovadores galego-portugueses", ditos/cantados por Natália Correia, Ary dos Santos e Amália Rodrigues
Todos os poemas são extraídos da antologia "Cantares dos trovadores galego-portugueses", atualizada pela mão de Natália Correia (1923-1993) e ditos ou pela própria e por Ary dos Santos (1937-1984), ou cantados por Amália Rodrigues (1920-1999), com música original de Fontes Rocha (exceto "Ermida de São Simeão", música de Alain Oulman).
![]() |
| Natália Correia |
![]() |
| José Carlos Ary dos Santos |
![]() |
| Amália Rodrigues |
sexta-feira, 30 de janeiro de 2015
JOSÉ FANHA*: Sorrio sempre que alguém diz: "Não gosto de ler"
"Meus Queridos Analfabetos
Todo o homem é um leitor. Lê imagens, sinais, signos e palavras. Lê a linguagem das nuvens e sabe que vai chover. Lê a linguagem dos pássaros, a das cabras, a das águas, lê todas as linguagens da natureza. Lê as linguagens que se lêem com a vista, com o olfacto, com o sabor, com o ouvido, com a pele. Para sobreviver na selva ou na tundra, os nossos antepassados dos tempos pré-históricos tinham que ser muito bons leitores.
A esta capacidade original de ler veio juntar-se a capacidade de nomear através da palavra. Esse foi um primeiríssimo acto mágico e maravilhoso, fundador da história da humanidade.
O próprio mundo na tradição judaico-cristã é criado pela palavra. Segundo o Génesis:
"No princípio, Deus criou os céus e a terra.
A terra era informe e vazia. As trevas cobriam o abismo, e o Espírito de Deus movia-Se sobre a superfície das águas.
Deus disse: 'Faça-se luz'. E a luz foi feita. Deus viu que a luz era boa e separou a luz das trevas. Deus chamou dia à luz e noite às trevas."
O criador do Homem e do Mundo disse: "Faça-se luz". Isto é, a palavra gerou a coisa. Mais do que isso, a palavra e a coisa ficaram indissoluvelmente ligadas. A coisa contém a palavra. Melhor, contém o nome. E o nome convoca a coisa.
Aos olhos de cada ser humano, aquela extraordinária descoberta que era a palavra dita continha uma forma de poder sobre o objecto nomeado. Pelo menos cada palavra era uma forma de um homem se aproximar da verdade nuclear daquilo que era nomeado, da inteireza fragmentada entre céus e terra, água, fogo e ar. Nomear seria uma forma de aproximação ao próprio acto primeiro dos deuses na criação do mundo e das coisas.
Esse era e é o poder dos analfabetos primários que são definidos desta forma pelo poeta e ensaísta alemão Hans Magnus Henzensberger: o analfabeto clássico não sabe ler nem escrever, precisa da memória, e tem de exercer a capacidade de narrar.
Foram analfabetos que pegaram na palavra e inventaram a literatura nas suas formas elementares, o mito, o conto, a canção, as rimas infantis. E é com esses instrumentos que os analfabetos se relacionam consigo próprios, com os outros, com o mundo, com o correr do tempo.
Sem querer idealizá-los ou embarcar na ilusão do bom selvagem, há que lembrar que sem tradição oral não haveria poesia, não haveria livros. A escrita levou tempo a fazer a sua entrada em cena. No entanto, inventada a escrita, durante muito tempo foi considerado preguiçoso aquele que tivesse o hábito de recorrer ao livro, já que, segundo Platão, a sabedoria na sua dialéctica tinha de ser oral.
O escrito debilitava o pensamento e destruía a memória. Ao contrário do orador, o texto escrito não era capaz de dar respostas nem se poderia defender quando questionado.
A verdade é que a escrita foi uma tecnologia que levou tempo a desenvolver-se e a ser utilizada integral e proficuamente pelo pensamento filosófico e científico, e bastante mais tempo ainda a entrar no quotidiano como um instrumento generalizado de relação individual e, digamos, poética com o mundo, para além da sua função de relatar o real.
No seu excepcional romance Vinte anos e um dia, o escritor Jorge Semprún afirma de uma forma simultaneamente definitiva e carregada de ironia que: “As histórias completamente verídicas só interessam à polícia.”
De facto, todos nós somos feitos do que vivemos, do que lemos, do que imaginamos e do que escrevemos. Como leitores, preservamos pedaços do pensamento, da emoção vivida ou escrita por outra pessoa para nos tornarmos nós próprios em participantes de um acto de criação, uma forma de diálogo que desenvolvemos connosco próprios, com o mundo e com o tempo.
É a leitura e a escrita que nos permitem habitar o tempo para trás e para a frente, no sentido da memória, ou da esperança.
Vivemos um tempo dominado por uma economia que mata, como diz o Papa Francisco, uma economia que reduz o entendimento da complexidade do mundo, que vê a cultura como mercadoria e a ciência como estrito instrumento prático. Esta economia reduz a vida dos homens a uma coisa sórdida e limitada em que o desejo é estereotipado e a vida é uma prisão chamada tempo presente.
A figura que há tempo domina a cena social é a do “analfabeto secundário”. Pode ser um ministro, um gestor, uma empregada de caixa de supermercado. Sabe ler e escrever mas diz com frequência que não tem tempo para ler, tem coisas mais importantes para fazer. É activo, adaptável, tem boa capacidade para abrir caminho, safa-se na vida. Está muito bem informado sobre os importantíssimos assuntos do dia que amanhã esquecerão. Sabe ler as informações de uso dos objectos que compra. Sabe usar os cartões de crédito e sabe passar cheques. Vive dentro de um mundo que o afasta hermeticamente de tudo quanto possa inquietar a sua consciência. A atrofia da memória não o preocupa. Aprecia a sua própria capacidade para se concentrar em nada. Vê a cultura como espectáculo ou mercadoria. Não tem a menor ideia de que é um analfabeto, analfabeto secundário, mas analfabeto.
A sua escrita está reduzida ao mínimo. O seu meio ideal é a televisão, as redes sociais, o SMS. Habita o território do lugar-comum e alimenta-se de doses fartas das “reflexões” de comentadores, políticos, económicos, desportivos e outros produtores do pensamento único."
In Público
*Poeta e escritor, comissário do 1.º Encontro da Literatura Infanto-Juvenil da Lusofonia
quarta-feira, 3 de dezembro de 2014
quinta-feira, 13 de novembro de 2014
Vamos Desassossegar?
Novembro levou-nos Pessoa e trouxe-nos Saramago.
Para os celebrarmos, pegámos na palavra Desassossego, impressa na capa do Livro de Bernardo Soares, semi-heterónimo de Pessoa, e na frase repetida por José Saramago, “Vivo desassossegado, escrevo para desassossegar”.
Amanhã visita a tua BE no intervalo das 10h20. Terás uma surpresa!
sábado, 18 de outubro de 2014
Convite: lançamento da obra "(IM)POSSÍVEIS (TRANS)POSIÇÕES" por Filomena Vieira
A ESA promoverá, ainda no dia 23*, o lançamento da obra "(Im)possíveis (Trans)posições: Ensaios sobre Filosofia, Literatura e Cinema". Esta obra reúne 25 ensaios da autoria de diversos investigadores portugueses e brasileiros, nomeadamente, Arthur Grupillo, Carlos Queiroz, Carlos Gomes, Celeste Natário, Cícero Bezerra, Constança Cesar, Daniel Sá, Edrisi Fernandes, Elsa Cerqueira, Evaldo Becker, Ilda Castro, Isabel Jasinski, Jorge Vasconcellos, Jorge Campos, Josalba Santos, José Almeida, José Carvalho, Josilene Bezerra, Marcos Balieiro, Oscar Bauchwitz, Pedro Morais, Renato Epifânio, Romero Venâncio, Susana Castro, Vítor Rua.
* Pequeno auditório, 14h40. Convite aberto à comunidade.
domingo, 31 de agosto de 2014
Ruy Belo: " O Portugal Futuro" dito por Mário Viegas
"o portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro."
Nota: Quatro estrelas brilham neste vídeo:
(1) "O portugal futuro" (grafado com minúscula no original), poema de Ruy Belo publicado em «Homem de Palavra(s)» (1970).
(2) A sua declamação por Mário Viegas, em «Poemas de Bibe» (1990), album em parceria com Manuela de Freitas.
(3) Algumas fotografias (cinco) de um dos maiores fotógrafos de sempre, Henri Cartier-Bresson.
(4) E o "Polish Poem", escrito por David Lynch e Chrysta Bell e cantado pela última. O vídeo reproduz os últimos versos da canção, com que termina o filme «Inland Empire».
Nota: Quatro estrelas brilham neste vídeo:
(1) "O portugal futuro" (grafado com minúscula no original), poema de Ruy Belo publicado em «Homem de Palavra(s)» (1970).
(2) A sua declamação por Mário Viegas, em «Poemas de Bibe» (1990), album em parceria com Manuela de Freitas.
(3) Algumas fotografias (cinco) de um dos maiores fotógrafos de sempre, Henri Cartier-Bresson.
(4) E o "Polish Poem", escrito por David Lynch e Chrysta Bell e cantado pela última. O vídeo reproduz os últimos versos da canção, com que termina o filme «Inland Empire».
Subscrever:
Comentários (Atom)































.jpg)
.jpg)

