quarta-feira, 4 de novembro de 2015

A importância de ler e escrever segundo Mario Vargas Llosa


"Da caverna aos arranha-céus, do garrote às armas de destruição massiva, da vida tautológica da tribo à era da globalização, as ficções da literatura têm multiplicado as experiências humanas, impedindo que homens e mulheres sucumbamos à letargia, ao isolamento, à resignação. Nada tem semeado tanto a inquietude, agitado tanto a imaginação e os desejos como essa vida de mentiras que acrescentamos à que temos, graças à literatura para protagonizar grandes aventuras, grandes paixões, que a vida real nunca nos dará. As mentiras da literatura se transformam em verdades através de nós, os leitores transmutados, contaminados de desejos e, por causa da ficção, em permanente desafio com a medíocre realidade. Feitiçaria que, ao nos iludirmos em ter o que não temos, ser o que não somos, aceder a essa impossível existência, onde, como deuses pagãos, nos sentimos terrenos e eternos, ao mesmo tempo, a literatura introduz em nossas mentes o inconformismo e a rebeldia, subjacentes a todas as façanhas que têm ajudado a reduzir a violência nas relações humanas. Para reduzir a violência, e não acabar com ela. Porque a nossa será sempre, felizmente, uma história inacabada. Por isto, temos que prosseguir sonhando, lendo e escrevendo, a maneira mais eficaz que encontramos para aliviar nossa natureza perecível, derrotar a podridão do tempo e tornar possível o impossível."


Excerto do discurso de Mario Vargas Llosa ao receber o Prémio Nobel de Literatura, Estocolmo, Suécia, 7 de dezembro de 2010.

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