terça-feira, 13 de setembro de 2016

"Excelência: a linha entre o estereótipo e a realidade". Por Carina Lopes, 12.ºCLH1

Eis um texto brilhante e a incitar a nossa reflexão da aluna do 12.º CLH1, Carina Lopes. Esta jovem obteve  19 valores nos exames nacionais de Filosofia e de Literatura Portuguesa! 
A Biblioteca Escolar felicita-te  por seres dotada de uma elevada consciência crítica e por estares sempre dísponível para colaborares connosco noutros projetos.

"Excelência: a linha entre o estereótipo e a realidade

De acordo com o estereótipo vigente, um aluno que seja considerado um estudante de excelência é alguém que alcança resultados bastante elevados a nível das avaliações académicas, é alguém cuja percentagem avaliativa referente ao comportamento é, quase invariavelmente, máxima, uma vez que se pressupõe que um aluno com muito bom aproveitamento, para alcançar este patamar, cumpra os requisitos estipulados no parâmetro “Saber ser/estar”.

Não será esta ótica redutora? Existirão, certamente, alunos com ritmo de trabalho, disciplina e método que, por motivos externos de vária ordem, não conseguem atingir determinado patamar em termos avaliativos. Isso retirar-lhe-á mérito ou reconhecimento? Colocá-los-á num patamar inferior? Segundo a minha opinião, definitivamente não.

A competitividade é uma característica imanente e inexpugnável da vida humana coletiva. É o que nos faz perseguir um aprimoramento constante das nossas capacidades pessoais e cognitivas de modo a sermos sempre melhores do que aquilo que fomos no passado. Deve nascer da consciencialização reflexiva da necessidade de evoluir e da recusa da estagnação e do conformismo.

A escola, enquanto microcosmos da realidade, é a primeira ambiência em que o Homem se confronta com a competitividade perante o outro. Neste espaço, a competitividade encontra-se enraizada no sentido de prostrar o corpo escolar perante o culto do resultado. Todos os problemas com que a escola se debate, todas as medidas e ações que o Governo empreende são no sentido da melhoria dos resultados nacionais. Verifica-se um primado do valor quantitativo que se atribui ao trabalho de um aluno em detrimento da qualidade de todo o processo que envolveu a produção do mesmo. Porque qualidade nem sempre pode ser convertida num valor numérico. E, regida somente por números, a mundividência de um aluno do séc. XXI é pautada por uma conceção distorcida de excelência.

A verdadeira e única excelência é aquela que advém de uma vontade pura de nos dedicarmos ao trabalho pelo mérito que ele por si só confere a quem o pratica. Excelência é a devoção pelo que se faz, é o suor do esforço, é a resiliência dos que falham e prosseguem o seu caminho, porque compreendem que o sucesso não é um caminho linear até ao topo. Por vezes, temos de regredir e voltar a aprender, temos de manter a motivação perante a eminência do fracasso.

A aparição do sucesso é multifacetada dependendo de como cada pessoa o perceciona. Assim como no mundo atual, este nem sempre é sinónimo de dinheiro e fama, na escola, o sucesso nem sempre surge na forma de um 20 estampado no enunciado de um teste. Sucesso encontra-se na simplicidade de ir gradualmente ultrapassando pequenas dificuldades, encontra-se na compreensão de que o conhecimento não é um dado adquirido mas uma construção que exige labor e que extravasa os limites da sala de aula. O conhecimento, assim como o aluno, deverá encontrar-se em constante mutação e deverá fornecer ao aluno ferramentas que lhe permitam desenvolver processualmente as suas capacidades para singrar na vida. Porque ser aluno não é nada mais do que a profissão da conquista da autonomia.

Enquanto estudante, é fulcral, ao serviço do alcance da excelência, a definição da importância do papel da Escola na vida de cada um e a partir daí desenvolver o espírito crítico, tendo como horizonte a máxima rentabilização das capacidades que cada um tem, o que exige autoconhecimento.

Um aluno excelente é capaz de apurar o conhecimento teórico que deverá ser convertido na conduta prática quotidiana de cada um e dotar-se da capacidade de empreender escolhas inteligentes na vida, escolhas essas que, a meu ver, abrangem todas as decisões que lhe proporcionarão “felicidade” futura a longo-prazo.

A vertente humana também deverá estar patente no percurso escolar de um aluno de excelência, na medida em que a excelência não é, nem pode ser, egoísta. O sucesso procura a partilha, a solidariedade para com o outro e a contribuição para o progresso coletivo.

E por último, mas não menos importante, um aluno de excelência é aquele que olha com realismo para o seu trabalho, para os seus pontos positivos e para as suas lacunas, e valoriza o esforço que nele deposita, sendo capaz de refletir introspetivamente quando a sua obra é, ou não, merecedora de orgulho. Os erros deverão ser reconhecidos e apreendidos como um acumular de experiência a não repetir no futuro e as vitórias deverão ser celebradas mas nunca uma oportunidade de comodismo.

É quase utópico pensar que alguém possa reunir em si todas estas características. Parece ainda algo mais irreal quando o assunto são estudantes que parecem cada vez mais repudiar a escola e quando fatores externos, como a relação professor/aluno, são dados fundamentais difíceis de equacionar. No entanto, é perseguindo utopias que se revoluciona e aperfeiçoa a realidade. E a mim parece-me que nunca foi tão necessária a alteração da definição de sucesso escolar. E, demarcando excelência de perfeição, eu considero que a vida, enquanto aprendizagem em constante devir, é a oportunidade de alcance de sucesso que deverá ser aproveitada ao máximo por todos aqueles que têm o privilégio de a poder iniciar em ambiente escolar. Nem todos o veem porque a pressão e o stress que advêm do mero alcance dos resultados, que por si só são vácuos, turvam cada vez mais uma perceção saudável do mundo.

Carina Lopes

Aluna do 12º ano"

Sem comentários:

Enviar um comentário