terça-feira, 12 de novembro de 2013

O Desassossego continua...

 Reflexão (parcial) de Ana Margarida Cardoso do 11º CT3

 
 
 
 
 
 
 
«O 'Ensaio sobre a Cegueira´'é uma obra que nos recorda a "responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam.” Num livro onde a literatura e a sabedoria se cruzam, Saramago obriga-nos a parar, fechar os olhos e ver. Recuperar a lucidez, reaver o afeto diante da pressão dos tempos e do que se perdeu: “uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos.”
Antes de falar sobre a cegueira para a qual Saramago nos remete, será importante compreender a citação que se encontra na epígrafe do livro. Esta frase é uma proposição chave visto que sem ela não conseguiremos descodificar a mensagem de Saramago: 'Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara'.
Serão os conceitos olhar, ver e reparar sinónimos? Para algumas pessoas talvez, mas para Saramago, não. Para o autor, a visão divide-se em 3 patamares: olhar, ver e reparar. Olhar é o primeiro patamar, o mais simples, implicando, por isso, uma panorâmica geral, ou seja olhar para um determinado espaço sem, contudo, notar sobre nenhum aspeto em particular. Ver obriga a fixar a vista em algum aspeto que sobressai durante o “olhar” exigindo algum grau de descodificação ou capacidade de interpretação. E o último patamar é reparar. O aspeto focado no patamar anterior é, além de analisado e dissecado, retido na memória a longo prazo, A memória é permite a identificação, ligação e numa etapa final a compreensão das situações, por analogia, proporcionando as adaptações do comportamento necessárias à mudança.
E através desta frase, a leitura de 'Ensaio sobre a Cegueira' faz com que olhemos, vejamos e reparemos numa humanidade que sofre um colapso temporário, o qual se manifesta numa estranha cegueira que não tem relação com qualquer tipo de anomalia física, "uma estranha cegueira branca” que impede o discernimento, impossibilita a distinção das coisas: a verdade da mentira, o bem do mal, o justo do injusto. Trata-se de uma incapacidade de discernimento que dilui os limites que separam o lado positivo e negativo, aumentando a zona de transição, um estado de incerteza que leva à desorientação. Trata-se de uma ocorrência de teor apocalíptico que se concretiza numa mutação repentina, traz o caos ao quotidiano. (...)
Esta luminosidade seria o paliativo da sociedade de consumo onde os media vendem uma ilusão glamorosa, baseada em mensagens douradas e vazias de conteúdo, com o objetivo de expurgar toda uma população de capacidade de raciocínio e sentido crítico.
Durante o tempo em que ficam sem visão, o desespero dos personagens faz com que alguns deles usem artifícios sujos para conseguir sobreviver. A partir disso, observamos situações como segregação de grupos, abuso de poder pelos mais fortes, disputas por comida, ganância, traição, violência e abuso sexual.
E quais dessas situações descritas acima não são comuns no nosso quotidiano? Todos esses problemas citados são problemas da sociedade em que vivemos. Frequentemente lidamos com abuso de poder das autoridades, desigualdade social, em que parte da população mundial vive abaixo da linha de pobreza e nem se quer faz uma refeição por dia, todo o tipo de violência, física, moral ou sexual. Sem contar os diversos tipos de preconceitos que geram a segregação de muitas pessoas.
Nada do que os personagens de Saramago sofrem no livro é estranho para nós. Na verdade, o autor fala da nossa cegueira quotidiana em relação a crise de nossa própria sociedade.(...)
A cegueira dos olhos é apenas uma metáfora para a nossa verdadeira cegueira mental. A perda de um dos sentidos aparece como pano de fundo para fazer um retrato da nossa sociedade: individualista, oportunista, chantagista, preconceituosa e, por vezes, solidária. A única diferença é que sem a visão, essas características não se discriminariam por classe social ou raça.(...)
O Ensaio sobre a Cegueira é um paradoxo através da cegueira conseguimos ver quem realmente somos. Esses cegos chegaram ao “fundo do poço” de onde puderam ver surgir as suas fraquezas, a sua arrogância, a sua intolerância, a sua impaciência, a sua violência. Mas assistiram também à sua própria força, à sua solidariedade, à sua generosidade, ao seu espírito revolucionário e à revisão de seus próprios preconceitos. Este livro é na verdade um ensaio sobre visão do outro, das relações humanas, das linguagens, da verdade, do poder …
O pensamento dominante no final do livro é que na realidade, ninguém cegou realmente e que, a humanidade, salvo raríssimas exceções, continuará cega ou atravessará períodos em que a incapacidade de discernimento pela alienação a atingirá com a mesma violência das grandes catástrofes naturais.»
 

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